Treasure Island

Antonio de Castro Alves

(14 March 1847 – 6 July 1871 / Curralinho)

A Cachoeira


Mas súbito da noite no arrepio
Um mugido soturno rompe as trevas...
Titubantes — no álveo do rio —
Tremem as lapas dos titães coevas!...
Que grito é este sepulcral, bravio,
Que espanta as sombras ululantes, sevas?
É o brado atroador da catadupa
Do penhasco batendo na garupa!...
Quando no lodo fértil das paragens
Onde o Paraguaçu rola profundo,
O vermelho novilho nas pastagens
Come os caniços do torrão fecundo;
Inquieto ele aspira nas bafagens
Da negra sucr'ruiúba o cheiro imundo...
Mas já tarde... silvando o monstro voa...
E o novilho preado os ares troa!
Então doido de dor, sânie babando,
Co'a serpente no dorso parte o touro...
Aos bramidos os vales vão clamando,
Fogem as aves em sentido choro...
Mas súbito ela às águas o arrastando
Contrai-se para o negro sorvedouro...
E enrolando-lhe o corpo quente, exangue,
Quebra-o nas roscas, donde jorra o sangue.
Assim dir-se-ia que a caudal gigante
— Larga sucuruiúba do infinito —
Co'as escamas das ondas coruscante
Ferrara o negro touro de granito!...
Hórrido, insano, triste, lacerante
Sobe do abismo um pavoroso grito...
E medonha a suar a rocha brava
As pontas negras na serpente crava!...
Dilacerado o rio espadanando
Chama as águas da extrema do deserto...
Atropela-se, empina, espuma o bando...
E em massa rui no precipício aberto...
Das grutas nas cavernas estourando
O coro dos trovões travam concerto...
E ao vê-lo as águias tontas, eriçadas
Caem de horror no abismo estateladas...
A cachoeira! Paulo Afonso! O abismo!
A briga colossal dos elementos!
As garras do Centauro em paroxismo
Raspando os flancos dos parcéis sangrentos.
Relutantes na dor do cataclismo
Os braços do gigante suarentos
Agüentando a ranger (espanto! assombro!)
O rio inteiro, que lhe cai do ombro.
Grupo enorme do fero Laocoonte
Viva a Grécia acolá e a luta estranha!...
Do sacerdote o punho e a roxa fronte...
E as serpentes de Tênedos em sanha!...
Por hidra — um rio! Por áugure — um monte!
Por aras de Minerva — uma montanha!
E em torno ao pedestal laçados, tredos,
Como filhos — chorando-lhe — os penedos!!!...


Submitted: Wednesday, June 06, 2012

Do you like this poem?
0 person liked.
0 person did not like.

Read this poem in other languages

This poem has not been translated into any other language yet.

I would like to translate this poem »

word flags

What do you think this poem is about?

Comments about this poem (A Cachoeira by Antonio de Castro Alves )

Enter the verification code :

There is no comment submitted by members..

Top Poems

  1. Phenomenal Woman
    Maya Angelou
  2. The Road Not Taken
    Robert Frost
  3. If You Forget Me
    Pablo Neruda
  4. Still I Rise
    Maya Angelou
  5. Dreams
    Langston Hughes
  6. Annabel Lee
    Edgar Allan Poe
  7. If
    Rudyard Kipling
  8. Stopping by Woods on a Snowy Evening
    Robert Frost
  9. I Know Why The Caged Bird Sings
    Maya Angelou
  10. A Dream Within A Dream
    Edgar Allan Poe

PoemHunter.com Updates

New Poems

  1. Budding Artists In a Tempera Grove Play .., mary douglas
  2. What the hell, Nassy Fesharaki
  3. Chair, dr.k.g.balakrishnan kandangath
  4. See if I care, Mark Heathcote
  5. Wishes Granted, Bill Cantrell
  6. Killer instinct mind, Mark Heathcote
  7. Book Condition: (Fairest of the) Fair, mary douglas
  8. It's The Fairy Queen Out Of Sight In Pal.., mary douglas
  9. *VII*- To Love, Leslie Guylee Cron
  10. Every Man Remembered!, Denis Martindale

Poem of the Day

poet Robert Burns

When biting Boreas, fell and doure,
Sharp shivers thro' the leafless bow'r;
When Phoebus gies a short-liv'd glow'r,
Far south the lift,
...... Read complete »

 

Modern Poem

poet Jessie Pope

 
[Hata Bildir]