Antonio de Castro Alves

(14 March 1847 – 6 July 1871 / Curralinho)

O Navio Negreiro part 5 (With English Translation) - Poem by Antonio de Castro Alves

Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura… se é verdade
Tanto horror perante os céus?!
O mar, por que nao apagas
Co'a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrao?…
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufao!

Quem sao estes desgraçados
Que nao encontram em vos
Mais que o rir calmo da turba
Que excita a fúria do algoz?
Quem sao? Se a estrela se cala,
Se a vaga à pressa resvala
Como um cumplice fugaz,
Perante a noite confusa…
Dize-o tu, severa Musa,
Musa libérrima, audaz!…

Sao os filhos do deserto,
Onde a terra esposa a luz.
Onde vive em campo aberto
A tribo dos homens nus…
Sao os guerreiros ousados
Que com os tigres mosqueados
Combatem na solidao.
Ontem simples, fortes, bravos.
Hoje miseros escravos,
Sem luz, sem ar, sem razao. . .

Sao mulheres desgraçadas,
Como Agar o foi também.
Que sedentas, alquebradas,
De longe… bem longe vêm…
Trazendo com tibios passos,
Filhos e algemas nos braços,
N'alma — lagrimas e fel…
Como Agar sofrendo tanto,
Que nem o leite de pranto
Têm que dar para Ismael.

Lá nas areias infindas,
Das palmeiras no pais,
Nasceram crianças lindas,
Viveram moças gentis…
Passa um dia a caravana,
Quando a virgem na cabana
Cisma da noite nos véus…
… Adeus, ó choça do monte,
… Adeus, palmeiras da fonte!…
… Adeus, amores… adeus!…

Depois, o areal extenso…
Depois, o oceano de pó..
Depois no horizonte imenso
Desertos… desertos só…
E a fome, o cansaço, a sede…
Ai! quanto infeliz que cede,
E cai p'ra nao mais s'erguer!…
Vaga um lugar na cadeia,
Mas o chacal sobre a areia
Acha um corpo que roer.

Ontem a Serra Leoa,
A guerra, a caça ao leao,
O sono dormido à toa
Sob as tendas d'amplidao?
Hoje… o porao negro, fundo,
Infecto, apertado, imundo,
Tendo a peste por jaguar…
E o sono sempre cortado
Pelo arranco de um finado,
E o baque de um corpo ao mar…

Ontem plena liberdade,
A vontade por poder…
Hoje… cúum'lo de maldade,
Nem sao livres p'ra morrer. .
Prende-os a mesma corrente
— Férrea, lúgubre serpente —
Nas roscas da escravidao.
E assim zombando da morte,
Dança a lúgubre coorte
Ao som do açoute… Irrisao!…

Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus,
Se eu deliro… ou se é verdade
Tanto horror perante os céus?!…
O mar, por que nao apagas
Co'a esponja de tuas vagas
Do teu manto este borrao?
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufao?…


English Translation

God of the unfortunates!
You tell me God,
If it is madness…if it is the truth
So much horror below the skies?!
Oh sea, why don't you erase
With the sponge of your waves
From your mantle, that blot?
Stars! Nights! Tempests!
Roll down from the immensities
Sweep the seas, typhoon!

Who are those unfortunates
Who don't find in you
More than the calm laugh of the crowd
Which incites the fury of the torturer,
Who are they? If the star silences,
If the hasty wave slides
Like an ephemeral accomplice,
Before the confused night…
You tell me, oh severe Muse
Freed audacious Muse!

They are the sons of the desert,
Where the earth marries the light.
Where living in open field
The tribe of nude men…
They are the audacious warriors
Who, with the spotted tigers
Fight in the solitude.
Yesterday simple, strong, braves
Today miserable slaves,
With no light, no air, no reason…

They are unfortunate women
Like Hagar was too
Whom thirsty, broken,
From far… very far come
Bringing with feeble steps,
Children and chains in the arms,
In the soul - tears and bitterness…
Like Hagar suffering greatly,
That even no milk of lament
Have they to offer Ishmael.

There on the infinite sands
From the palms of a land,
Beautiful children were born,
There, lived a gentle maiden…
One day a caravan passes by
When the virgin in a cabin
Apprehensive of the night's veils
…Goodbye mountain hut
…Goodbye palms of the fountain
…Goodbye loves…goodbye!

After, the extensive sands
After, the ocean of dust
After in the immense horizon
Deserts…deserts only
And the hunger, the tiredness, the thirsty…
Ai! So many unfortunates give up,
And fall to rise no more!
A free place in the cage,
But the jackal on the sand
Finds a body to gnaw.

Yesterday the Sierra Leone
The war, the lion hunting,
The sleep, slept without worries
Under the tents of the amplitude!
Today… the dark basement, deep
Infected, crowded, gross,
Housing the plague instead of a jaguar
And the sleep always interrupted
By the sudden pull of a deceased,
And the crashing of a body into the sea…

Yesterday plain freedom,
The will for power…
Today immense cruelty
Even not free to die…
Fastened at the same chain
- Ironed, dismal serpent -
In the links of slavery.
And so, mocking from the death,
Dance the dreadful cohort
At the sound of the lash…Disdainful!

God of the unfortunates!
You tell me God,
If it is madness…if it is the truth
So much horror below the skies?!
Oh sea, why don't you erase
With the sponge of your waves
From your mantle, that blot?
Stars! Nights! Tempests!
Roll down from the immensities
Sweep the seas, typhoon!

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Poem Submitted: Friday, September 3, 2010

Poem Edited: Wednesday, June 13, 2012


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