Antonio de Castro Alves

(14 March 1847 – 6 July 1871 / Curralinho)

Confidência - Poem by Antonio de Castro Alves

Maldição sobre vós, doutores da
lei! Maldição sobre vós, hipócritas!
Assemelhais-vos aos sepulcros brancos
por fora; o exterior parece formoso,
mas o interior está cheio de ossos e
podridão.
Evang. de S. MATEUS, cap. XXII.


Quando, Maria, vês de minha fronte
Negra idéia voando no horizonte,
as asas desdobrar,
Triste segues então meu pensamento,
Como fita o barqueiro de Sorrento
As nuvens ao luar.


E tu me dizes, pálida inocente,
Derramando uma lágrima tremente,
Como orvalho de dor:
'Por que sofres? A selva tem odores,
'0 céu tem astros, os vergéis têm flores,
'Nossas almas o amor'.


Ai! tu vês nos teus sonhos de criança
A ave de amor que o ramo da esperança
Traz no bico a voar;
E eu vejo um negro abutre que esvoaça,
Que co'as garras a púrpura espedaça
Do manto popular.


Tu vês na onda a flor azul dos campos,
Donde os astros, errantes pirilampos,
Se elevam para os céus;
E eu vejo a noite borbulhar das vagas
E a consciência é quem me aponta as plagas
Voltada para Deus.


Tua alma é como as veigas sorrentinas
Onde passam gemendo as cavatinas
Cantadas ao luar.
A minha â€" eco do grito, que soluça,
Grito de toda dor que se debruça
Do lábio a soluçar.


í‰ que eu escuto o sussurrar de idéias,
O marulho talvez das epopéias,
Em torno aos mausoléus,
E me curvo no túm'lo das idades
â€" Crí¢nios de pedra, cheios de verdades
E da sombra de Deus.


E nessas horas julgo que o passado
Dos túmulos a meio levantado
Me diz na solidão:
'Que és tu, poeta? A lí¢mpada da orgia,
'Ou a estrela de luz, que os povos guia
'í€ nova redenção?'


í" Maria, mal sabes o fadário
Que o moço bardo arrasta solitário
Na impotência da dor.
Quando vê que debalde í liberdade
Abriu sua alma - urna da verdade
Da esperança e do amor! ...


Quando vê que uma lúgubre coorte
Contra a estátua (sagrada pela morte)
Do grande imperador,
Hipócrita, amotina a populaça,
Que morde o bronze, como um cão de caça
No seu louco furor! ...


Sem poder esmagar a iniqí¼idade
Que tem na boca sempre a liberdade,
Nada no coração;
Que ri da dor cruel de mil escravos,
â€" Hiena, que do túmulo dos bravos,
Morde a reputação! ...


Sim... quando vejo, ó Deus, que o sacerdote
As espáduas fustiga com o chicote
Ao cativo infeliz;
Que o pescador das almas já se esquece
Das santas pescarias e adormece
Junto da meretriz...


Que o apóstolo, o sí­mplice romeiro,
Sem bolsa, sem sandálias, sem dinheiro,
Pobre como Jesus,
Que mendigava outrora í caridade
Pagando o pão com o pão da eternidade,
Pagando o amor com a luz,


Agora adota a escravidão por filha,
Amolando nas páginas da Bí­blia
O cutelo do algoz...
Sinto não ter um raio em cada verso
Para escrever na fronte do perverso:
'Maldição sobre vós!'


Maldição sobre vós, tribuno falso!
Rei, que julgais que o negro cadafalso
í‰ dos tronos o irmão!
Bardo, que a lira prostituis na orgia
â€" Eunuco incensador da tirania â€"
Sobre ti maldição!


Maldição sobre tí­, rico devasso,
Que da música, ao lí¢nguido compasso,
Embriagado não vês
A criança faminta que na rua
Abraça u'a mulher pálida e nua,
Tua amante... talvez!...


Maldição! ... Mas que importa?... Ela espedaça
Acaso a flor olente que se enlaça
Nas c'roas festivais?
Nodoa a veste rica ao sibarita?
Que importam cantos, se é mais alta a grita
Das loucas bacanais?


Oh! por isso, Maria, vês, me curvo
Na face do presente escuro e turvo
E interrogo o porvir;
Ou levantando a voz por sobre os montes, â€"
'Liberdade', pergunto aos horizontes,
Quando enfim hás de vir?'


Por isso, quando vês as noites belas,
Onde voa a poeira das estrelas
E das constelaçíµes,
Eu fito o abismo que a meus pés fermenta,
E onde, como santelmos da tormenta,
Fulgem revoluçíµes!...

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Poem Submitted: Wednesday, June 6, 2012

Poem Edited: Wednesday, June 6, 2012


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