Álvares de Azevedo

(12 September 1831 - 25 April 1852 / São Paulo)

O Poema de um louco - Poem by Álvares de Azevedo

Foi poeta: cantou, e o estro em fogo
Crestou-lhe o peito, devorou seus dias
E a febre ardente desbotou-lhe a fronte
Em dores sós, em delirar insano.

Foi poeta: cantou, sonhou: a vida
Canto e sonhos lhe foi. Amor e glória
Com asas brancas viu sorrindo em vôos.
Foi-lhe vida sonhar: e ardentes sonhos
A fronte lhe acenderam, lhe estrelaram
Mágico da existência o firmamento.
Cantou, sonhou-amou:: cantos e sonhos
Em amor converteu-os. De joelhos
Em fundo enlevo ele esperou baixasse
Alguma luz do céu, que amor dissesse-

Anjo ou mulher! embora que ele a amara
C'o fogo queimador que o consumia
Com o amor de poeta que o matava!
Anjo ou mulher-embora! e em longas preces
Noite e dia o esperou-Mísero! Embalde!

Sonhou-amou-cantou: em loucos versos
Evaporou a vida absorta em sonhos-
E debalde! ninguém chorou-lhe os prantos
Que sobre as mortas ilusões já findas
Pálido derramara-
Amou! E um peito
Junto ao seu não ouviu bater consoante
C'os amores do seu! Ninguém amou-o
E nem as mágoas lhe afogou num beijo!

-E morreu sem amor.-Bateu-lhe embalde
O pobre coração em loucas ânsias.
Passou ignoto, solitário e triste
Entre os anjos do amor, só viu-lhe risos
Em braços doutros-e invejosa mágoa
Essa alheia ventura só lhe trouxe.
Nunca a mão dele de uma fronte branca
A alva coroa fez cair da virgem-
Jovem, solteiro, sem consórcio d'alma

Entre as rosas da vida-mas nenhuma
Nem deu-lhe um riso-nem do moço pálido
No imo d'alma guardou uma saudade!

Mas se à terra saudades não deixara
Não levou-as também-do peito o orgulho
Que ninguém quis amar, ninguém amou.
-Foi-lhe quimera o amor, não mais lembrou-o,
Tentou-o ao menos. -E que importa um morto?
- Doido é quem geme em lagrimar estéril-
Quando o luto findou e alegre o baile
Corre entre flores no valsar, quem lembra
O defunto que é podre no jazigo?
-Morrera-lhe o sonhar-por que chorá-lo?

E morreu sem amor! E ele contudo
Tinha no peito tanto amor e vida!
Alma de sonhos, tão ardentes, cheia!
E anelante do amor do peito-em outro
Em horas ternas efundir em beijos!

E às vezes quando a fronte pela febre
Pesada e quente sobre as mãos firmava,
Quando esse delirar febril da insônia
Em vertigens travava de sua alma,
Um negro pensamento lhe passava
Como um fuzil no cérebro fervente,
E pensava dos loucos no delírio,
Na escura treva da vertigem tonta!
Temia-a morte não-mas-a loucura.

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Poem Submitted: Monday, June 4, 2012

Poem Edited: Monday, June 4, 2012


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