Antonio de Castro Alves

(14 March 1847 – 6 July 1871 / Curralinho)

Originais - Poem by Antonio de Castro Alves

Destruição de Jerusalém

'TREME, treme, dissoluta,
ímpia filha de Sião!
Que a tua devassidão
Provoca a ira de Deus;
Povo e rei, todos profanam
Do Senhor os vasos santos,
A Baal se entoam cantos!
O! como se ultraja os céus?!...


'í" rei poluto se entrega
Ao prazer das saturnais;
Nas orgias infernais
Dorme o seu povo também.
Escarneceste o profeta?
Desprezaste a Jeremias?
Pois sim!... por bem curtos dias
Tu serás Jerusalém.


'Teus palácios majestosos,
Teus senhores dissolutos,
Pelo ví­cio já corruptos,
Hão de cair Culminados
Tuas donzelas mimosas,
E teus filhos, sem auxí­lio
Da escravidão, no exí­lio
Morrerão aferrolhados.


'Treme! treme! dissoluta,
Filha ingrata de Sião!
Que a tua condenação,
Já lavrou-a o Senhor Deus... '
Assim falava inspirado
O profeta ao rei, ao povo,
Que o escarneciam de novo,
Ouvindo os decretos seus.



II


Lá nas orlas do horizonte
Sutil fumo se condensa;
Cresce, e em nuvem negra, imensa,
Sobe aos céus em caracol.
A terra atroam medonhos
Confusos tropéis ruidosos..
Os corcéis rincham fogosos;
Brilha o ferro í luz do sol.


Alarma! alarma! tremendo,
Os vigias de Sião
Gritam; reina a confusão,
Corre o povo alvorotado;
Alarma! surge o inimigo,
Ameaçando as muralhas
Pelo furor das batalhas
Trazendo o crí¢nio queimado.


í€ frente ousado e terrí­vel
Vem Nabucodonosor;
Nos seus olhos o furor
Fuzila; brandindo a lança,
Ergue o férreo braço irado,
De sangue e morte sedento;
E mais veloz do que o vento,
Galopa a bradar â€" vingança!


Trava-se a luta medonha.
Do inimigo o duro ferro,
Como a cascata do Serro,
Tudo aniquila veloz;
Emaranham-se os guerreiros,
Geme o sabre na couraça,
í‰ tudo luto e fumaça,
Troveja do horror a voz.


Sobem aos céus os clamores
Das mulheres e crianças,
Que, sob o império das lanças,
Lastimam-se a triste sorte;
Jorra o sangue pelas praças,
De mortos juncam-se as ruas,
Em corpos e espáduas nuas
Tropeça o que escapa í morte.


Mas, não basta o extermí­nio
í€ vingança do Senhor;
Do cativeiro na dor
Não basta gemer Sião;
Infernal chama se ateia,
Devasta os tetos pomposos,
E os castelos majestosos
E o templo de Salomão.



III


E a nivelar-se ao pó foi a princesa,
A formosa cidade de Sião;
Como tomba do monte o altivo cedro
Ao desabrido sopro do tufão.


Silêncio sepulcral, estende as asas
Sobre a vasta ruí­na, fumegante,
Quebrado apenas pelo grito agudo
Da andorinha, sem ninho, vaga, errante.


Negro véu, como crepe de finado
Caiu pesado, como noite escura,
Sobre o solo, que há pouco adormecia
Na soberba, opulência e formosura.


Do viajante os olhos não encontram
Senão negros vestí­gios de cidade;
Foi Sião, que findou-se, como um ninho
Arrancado ao tufão da tempestade.


Jerusalém na febre dos prazeres
A voz não quis ouvir de Jeremias;
Pois sim!... mas viu bem cedo realizadas
Do profeta sombrio as profecias.


E em vez do canto ardente das orgias,
Só se ouviam as aves de rapina;
Os povos converteram-se em argila;
Sião? â€" ei-la â€" confusa e vasta ruí­na!!!

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Poem Submitted: Wednesday, June 6, 2012



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