José Miguel Silva Poems

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1.
CHUVA DE PEDRAS - KEN LOACH (1993)

Os desempregados, por definição, não têm
cara. Deve ser embaraçoso não ter cara. Daí
talvez o motivo por que se escondem de nós.
Escondem-se nas ruas, nos bancos de jardim,
nas paragens de autocarro, escondem-se
no pão, no teu porta-moedas, nos poemas
mal escritos ou nos filmes realistas ingleses.
Onde sabem que ninguém os irá importunar.
...

2.
RAINING STONES - KEN LOACH (1993)

The unemployed, by definition, have no
face. It must be embarrassing not to have
a face. Maybe that's why they hide from us.
They hide in the streets, on park benches,
at bus stops. They hide in your bread,
in your purse, in badly written
poems or in realist British films.
Where they know no one will bother them.
...

3.
VEM PARA FICAR

Acontece quando mais o esperamos:
um punho bate à porta,
não se trata do carteiro
nem da juventude. Diz-se
da família. Vem para ficar.

Começa por brincar às escondidas
com os nossos pensamentos.
Acorda-nos de noite, diverte-se
a romper as sapatilhas,
deixa frascos de formol
sobre a mesa da cozinha.

Primeiro, não sabendo o que fazer,
tentamos distrair a sua fome,
mostramos-lhe o relógio,
passamos-lhe a carteira para as mãos,
os botões da gabardine, os anéis.
Por último, os dedos.

Neste passo, depressa nos convence
a tratá-lo por senhor, a ceder-lhe num sorriso
a cadeira do avô, o telefone
dos amigos, a vista da janela.
De cabeça descoberta
servimos o jantar.

Com o tempo percebemos:
quer vestir-nos do avesso,
forrar de vento norte
a gola dos casacos, levar-nos a dizer:
"há nas folhas do Outono vivo lume,
que faço eu em minha casa?"
...

4.
HERE TO STAY

When we most expect it
there's a knock on the door:
not the postman
and not youth calling. He says
he's family and is here to stay.

First he plays hide and seek
with our thoughts.
He wakes us up at night, rips
our slippers apart for fun,
leaves jars of formaldehyde
on the kitchen table.

At a loss for what to do, we try
to divert his hunger.
We show him our watch,
give him our wallet,
the buttons of our raincoat, our rings.
And finally our fingers.

At which point he persuades us
to call him sir and to offer him
our grandfather's chair, the phone numbers
of our friends, the view from the window.
With head uncovered
we serve dinner.

In time we realize
he wants to dress us inside out,
to line our coat collars
with the north wind, to have us say:
"the autumn leaves are burning bright,
what am I doing at home?"
...

5.
NA FEIRA DO LIVRO - II

- "Tem livros sobre o prazer?"
sussurra o desarmado
pistoleiro do amor.
Um deslize do genoma
soterrou-lhe o coração.

Os dentes em balanço,
os olhos de través,
a estopa do cabelo;
sua vida é refutada
pelo cânone festivo
do grego to kallon.

Não tem lugar no mundo
dos heróis, aprendeu a soletrar
na escola do revés
e não há quem lhe perdoe
o sofrimento, quando pulsa
na pergunta
entre todas indecente.
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6.
AT THE BOOK FAIR - II

"Do you have books about pleasure?"
mumbles the unarmed
gunner of love.
A kink in his genome
had buried his heart.

Teeth on edge,
slanting eyes,
hair like tow,
his life has been refuted
by the festive canon
of the Greek to kallon.

He has no place in the world
of heroes. He learned to spell
in the school of misfortune,
and no one forgives him
the suffering that throbs
in that utterly indecent
question.
...

7.
A MINHA MUSA

É mais casta do que eu
e só bebe água mineral.
Furtiva, insolente, caprichosa,
às vezes desaparece-me de casa
durante meses. Apetece-me
bater-lhe. Mas talvez a culpa
seja minha. Passo tanto tempo
a coçar a cabeça ou no terraço
a ver passar os aviões.
É natural que se farte de mim,
raramente estou em casa
quando chega, prefiro dormir
a ver televisão com ela
sentada nos meus joelhos.

Amiúde me pergunto
se compensam os tormentos
a que me força.
Meteu na cabeça fazer
de mim poeta, quando
o que eu gostaria era de ser
aviador. (Mas tenho medo
das alturas, e ela sabe-o.
Aproveita-se da minha debilidade.)

Obriga-me a ficar de olhos abertos
durante o sono, a estudar os
caninos que a vida me mostra,
o manual dos elementos, a história
calamitosa dos meus erros.
É preciso ter estômago
para tanta solidão. Não admira
que muitas vezes a traia
com a Helena, com o bourbon
dos amigos, com o voo violeta
do jacarandá no Largo do Viriato.
Mas não adianta, não sente ciúmes,
ela própria me empurra
para os braços do mundo.

É tão exigente, tão snob, tão
tinhosa. Por ela, não havia
domingos nem feriados,
não havia verão. Era sempre
toda a vida um quarto escuro
com filmes de série B e
uma banda sonora de tiros, soluços,
gargalhadas de teatro anatómico.
Marca-me duelos - é louca! -
com temíveis espadachins,
à vista dos quais a minha alma
treme dos pés à cabeça. Diz que
me faz bem sangrar um bocado,
que é minha amiga, talvez.

Fria, severa, calculadora,
tenta o que pode para contrariar
a minha natureza ruidosa,
paciente, sentimental.
Diz que é uma porcaria
escrever com lágrimas, recita
Mallarmé, levanta-se de noite
para me rasgar os poemas.
Não é fácil aturá-la.

Só para me irritar, muda
o nome de todas as coisas:
se vê um massacre chama-lhe
acre de terra lavrada,
vê um mendigo chama-lhe
trigo, vê uma porta
e chama-lhe susto.
Às vezes pergunto-me
se não será parva.

A verdade é que não sou feliz
com ela, apenas um pouco
mais solitário.
Mas sem ela - vejam que
tristeza, que abandono, que.
...

8.
VISTA PARA UM PÁTIO/DEZ

A infância gosta de filmes de época.
Sobe a trote a escadaria do cinema, alado o coração,
ao encontro dos melhores espadachins,
da colérica beleza dos heróis.

O acerto da justiça, os tiros ideais,
comunicam-lhe a certeza de que o mal
está cercado no desfiladeiro:
só lhe restam duas balas - vai perder.

A pouca luz da sala determina a ilusão.
Desfeita com os risos que o cercam
à saída, quando a massa dos colegas delibera:
tu és o vilão, ficas na baliza.
...

9.
VIEW ONTO A COURTYARD - 10

An ardent fan of period films, childhood
skips up the cinema staircase, heart aflutter,
to feast eyes on the dashing swashbucklers,
on the heroes' wrathful beauty.

The reckoning of justice, the ideal gunshots,
convey the certainty that evil
has been surrounded in the gorge
and, with only two bullets left, is bound to lose.

The dim light in the theater fosters the illusion,
which dissolves amid the laughs that surround him
at the exit, where his schoolmate all agree:
you're the villain, you can be the water boy.
...

10.
PARA AGRADAR A UMA SOMBRA

Isn't it just like love?
The Psychedelic Furs
Agora que já chorei o meu papel de solitário
posso virar a folha e declarar que, na verdade,
eu nunca estive sozinho. Tive sempre a boa companhia
da minha sombra. E não posso dizer
que nos déssemos mal: uns dias pior, outros pior.
Como todos os casais. Tínhamos (e temos)
a mesma idade, os mesmos gostos musicais,
um amor paralelo por fogo de lenha,
líamos os livros a meias, quase não gastávamos
nenhum oxigénio.

Dos dois era ela quem insistia, às vezes,
para irmos dançar. Mas eu, é claro, detestava
o tremedal das discotecas; amava mais depressa
o movimento descritivo dos romances
do que a luz hipotecada de um corpo distante.

Com o tempo, no entanto, foi crescendo esse litígio.
As nossas relações foram perdendo vulto
à medida que ela convidava mais gente
para a nossa cama. Até que um dia chegou a casa
e apresentou-me "o amor da nossa vida; agora
somos três". E assim a minha sombra,
a minha ingrata começou a dizer coisas lacerantes.
Por exemplo: "Vai tu ao cinema. Nós ficamos."
Ou então: "Bem podemos, de vez em quando,
caminhar separados, ou não achas?" E fecha-se
no quarto com a outra, em colóquios ofegantes.
Altura em que, de raiva, saio porta fora.

Uma vida a três é talvez menos longa do que uma vida
a dois. Há um milímetro agora de distância entre mim
e a sombra. O espaço bastante para um raio de luz.
Não ficámos, realmente, pior do que estávamos.
Mas chega a ser enjoativo ver o trevo cor-de-rosa
que semeiam no quintal, felizes como duas estrelinhas
de cinema. Nem sei o que diga. Parecem crianças.
...

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