Antonio de Castro Alves

(14 March 1847 – 6 July 1871 / Curralinho)

A Tarde - Poem by Antonio de Castro Alves

Era a hora em que a tarde se debruça
Lá da crista das serras mais remotas...
E d'araponga o canto, que soluça,
Acorda os ecos nas sombrias grotas;
Quando sobre a lagoa, que s'embuça,
Passa o bando selvagem das gaivotas...
E a onça sobre as lapas salta urrando,
Da cordilheira os visos abalando.

Era a hora em que os cardos rumorejam
Como um abrir de bocas inspiradas,
E os angicos as comas espanejam
Pelos dedos das auras perfumadas...
A hora em que as gardênias, que se beijam,
São tí­midas, medrosas desposadas;
E a pedra... A flor... As selvas... Os condores
Gaguejam... Falam... Cantam seus amores!

Hora meiga da Tarde! Como és bela
Quando surges do azul da zona ardente!
... Tu és do céu a pálida donzela,
Que se banha nas termas do oriente...
Quando é gota do banho cada estrela.
Que te rola da espádua refulgente...
E, - prendendo-te a trança a meia lua,
Te enrolas em neblinas seminua!...

Eu amo-te, ó mimosa do infinito!
Tu me lembras o tempo em que era infante.
Inda adora-te o peito do precito
No meio do martí­rio excruciante;
E, se não te dá mais da infí¢ncia o grito
Que menino elevava-te arrogante,
í‰ que agora os martí­rios foram tantos,
Que mesmo para o riso só tem prantos!...

Mas não m'esqueço nunca dos fraguedos
Onde infante selvagem me guiavas,
E os ninhos do sofrer que entre os silvedos
Da embaí­ba nos ramos me apontavas;
Nem, mais tarde, dos lí¢nguidos segredos
De amor do nenufar que enamoravas...
E as tranças mulheris da granadilha!...
E os abraços fogosos da baunilha!...

E te amei tanto â€" cheia de harmonias
A murmurar os cantos da serrana, â€"
A lustrar o broquei das serranias,
A doirar dos rendeiros a cabana...
E te amei tanto â€" í flor das águas frias
Da lagoa agitando a verde cana,
Que sonhava morrer entre os palmares,
Fitando o céu ao tom dos teus cantares!...

Mas hoje, da procela aos estridores,
Sublime, desgrenhada sobre o monte,
Eu quisera fitar-te entre os condores
Das nuvens arruivadas do horizonte...
... Para então, â€" do relí¢mpago aos livores,
Que descobrem do espaço a larga fronte, â€"
Contemplando o infinito..., na floresta
Rolar ao som da funeral orquestra!

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Poem Submitted: Wednesday, June 6, 2012

Poem Edited: Wednesday, June 6, 2012


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