Antonio de Castro Alves

(14 March 1847 – 6 July 1871 / Curralinho)

A visão dos mortos - Poem by Antonio de Castro Alves

On rapporte encore qu'un berger
ayant été introduit une fois par un
nain dans le Hyffhaese, l'empereur
(Barberousse) se leva et lui demanda
si les corbeaux volaient encore autour
de la montagne. Et, sur la réponse
afí­irmative du berger, il s'écria en
soupirant: i1 faut donc que je dors
encore pendant cent ans'!
H. Heine (Allemagne)


Nas horas tristes que em neblinas densas
A terra envolta num sudário dorme,
E o vento geme na amplidão celeste
- Cúpula imensa dum sepulcro enorme, -
Um grito passa despertando os ares,
Levanta as lousas invisí­vel mão.
Os mortos saltam, poeirentos, lí­vidos.
Da lua pálida ao fatal clarão.


Do solo adusto do africano Saara
Surge um fantasma com soberbo passo,
Presos os braços, laureada a fronte,
Louco poeta, como fora o Tasso.
Do sul, do norte... do oriente irrompem
Dórias, Siqueiras e Machado então.
Vem Pedro lvo no cavalo negro
Da lua pálida ao fatal clarão.


O Tiradentes sobre o poste erguido
Lá se destaca das cerúleas telas,,
Pelos cabelos a cabeça erguendo,
Que rola sangue, que espadana estrelas.
E o grande Andrada, esse arquiteto ousado,
Que amassa um povo na robusta mão:
O vento agita do tribuno a toga
Da lua pálida ao fatal clarão.


A estátua range... estremecendo move-se
O rei de bronze na deserta praça.
O povo grita: Independência ou Morte!
Vendo soberbo o Imperador, que passa.
Duas coroas seu cavalo pisa,
Mas duas cartas ele traz na mão.
Por guarda de honra tem dous povos livres,
Da lua pálida ao fatal clarão.


Então, no meio de um silêncio lúgubre,
Solta este grito a legião da morte:
'Aonde a terra que talhamos livre,
Aonde o povo que fizemos forte?
Nossas mortalhas o presente inunda
No sangue escravo, que nodoa o chão.
Anchietas, Gracos, vós dormis na orgia,
Da lua pálida ao fatal clarão.


'Brutus renega a tribuní­cia toga,
O apost'lo cospe no Evangelho Santo,
E o Cristo - Povo, no Calvário erguido,
Fita o futuro com sombrio espanto.
Nos ninhos d'águias que nos restam? - Corvos,
Que vendo a pátria se estorcer no chão,
Passam, repassam, como alados crimes,
Da lua pálida ao fatal clarão.


'Oh! é preciso inda esperar cem anos...
Cem anos. . . ' brada a legião da morte.
E longe, aos ecos nas quebradas trêmulas,
Sacode o grito soluçando, - o norte.
Sobre os corcéis dos nevoeiros brancos
Pelo infinito a galopar lá vão...
Erguem-se as névoas como pó do espaço
Da lua pálida ao fatal clarão.

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Poem Submitted: Wednesday, June 6, 2012

Poem Edited: Wednesday, June 6, 2012


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