ENCONTRO Poem by Teixeira de Pascoaes

ENCONTRO

Do meu encontro vivo com as cousas
Humildes da Natura, nascem almas,
Aparições divinas,
Que, abstractas, me contemplam, não sei donde,
Não sei de que lugar desconhecido
E fora deste espaço em que aparecem
As árvores e os penedos.

Vejo espectros, imagens do Mistério,
Quiméricas figuras,
Perfis de lume impressos no crepúsculo,
Como sinais de agoiro. . .

Perfis de palidez alvorecendo ao longe,
E tristezas que são retratos esvaídos,
De ignotas Divindades. . .
Estátuas do silêncio e da melancolia,
Na solidão dos montes. . .
Atitudes da Esfinge no deserto,
A sombra das Pirâmides ao sol,
E Platão arrastando a túnica de luz,
Entre os padres do Egipto, hieráticos e tristes,
Vestidos de poeira e de penumbras mortas,
Nos templos de luar e empedernidas nuvens. . .

Vejo, diante de mim, quiméricas presenças,
Horizontes de sonho que me cingem
Num doloroso abraço! Escuras aves
Que me pousam na fronte anoitecida,
E ventos que me levam através
De névoas e relâmpagos. . .
E, já perdido e morto, não sou mais
Que uma aparência humana,
Boiando sobre as ondas da emoção
Que brotam, cá de dentro, como sangue
Duma ferida aberta. . .
E vou à flor das ondas que se espraiam
Em litorais de neve e branca espuma,
Em distâncias azuis de claridade infinda,
E no vago nocturno em que as estrelas
Afloram, como risos do demónio. . .

Flutuo num sonho aéreo,
Em alturas de místico esplendor,
Onde abre o lírio branco do luar.

Flutuo num sonho aéreo, em que me vejo
Um ser indefinido. . . A noite imensa,
Que estende sobre mim as negras asas,
Não me pode esconder. A minha face,
Erguida para além da escuridão,
Contempla a Luz divina./pre>

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