Antonio de Castro Alves

(14 March 1847 – 6 July 1871 / Curralinho)

Fábula - O pássaro e a flor - Poem by Antonio de Castro Alves

Era num dia sombrio
Quando um pássaro erradio
Veio parar num jardim.
Aí­ fitando uma rosa,
Sua voz triste e saudosa,
Pí´s-se a improvisar assim.


'ó Rosa, ó Rosa bonita!
í" Sultana favorita
Deste serralho de azul:
Flor que vives num palácio,
Como as princesas de Lácio,
Como as filhas de 'Stambul.


Corno és feliz! Quanto eu dera
Pela eterna primavera
Que o teu castelo contém...
Sob o cristal abrigada,
Tu nem sentes a geada
Que passa raivosa além.


Junto í s estátuas de pedra
Tua vida cresce, medra,
Ao fumo dos narguillés,
No largo vaso da China
Da porcelana mais fina
Que vem do Império Chinês.


O Inverno ladra na rua,
Enquanto adormeces nua
Na estufa até de manhã.
Por escrava - tens a aragem
O sol - é teu louro pajem.
Tu és dele - a castelã.


Enquanto que eu desgraçado,
Pelas chuvas ensopado,
Levo o tempo a viajar,
- Boêmio da média idade,
Vou do castelo í cidade,
Vou do mosteiro ao solar!


Meu capote roto e pobre
Mal os meus ombros encobre
Quanto í gorra... tu bem vês! ...
Ai! meu Deus! se Rosa fora
Como eu zombaria agora
Dos louros dos menestréis!. . .

........................................ ....


Então por entre a folhagem
Ao passarinho selvagem
A rosa assim respondeu:
'Cala-te, bardo dos bosques!
Ai! não troques os quiosques
Pela cúpula do céu.


Tu não sabes que delí­rios
Sofrem as rosas e os lí­rios
Nesta dourada prisão.
Sem falar com as violetas.
Sem beijar as borboletas,
Sem as auras do sertão.


Molha-te a fria geada...
Que importa? A loura alvorada
Virá beijar-te amanhã.
Poeta, romperás logo,
A cada beijo de fogo,
Na cantilena louçã.


Mas eu?! Nas salas brilhantes
Entre as tranças deslumbrantes
A virgem me enlaçará
Depois cadáver de rosa
A valsa vertiginosa
Por sobre mim rolará.


Vai, Poeta... Rompe os ares
Cruza a serra, o vale, os mares
Deus ao chão não te amarrou!
Eu calo-me - tu descansas,
Eu rojo - tu te levantas,
Tu és livre - escrava eu sou! ...


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Poem Submitted: Wednesday, June 6, 2012

Poem Edited: Wednesday, June 6, 2012


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