O MOINHO DE CAFÉ Poem by Vasco Graça Moura

O MOINHO DE CAFÉ

o moinho de café figura nalguns
quadros dos cubistas, com o jornal, a
garrafa, o cachimbo, tudo em
castanhos e cinzentos. é

a realidade nas suas arestas vivas, a sombria
presença das reduzidas
alucinações: o moinho
de café transformava tudo em fino pó

moído que encravava as engrenagens mais íntimas,
as da paixão e do lamento, ou as caligrafias
lineares de meios perfis e aves azul-cobalto.
mais tarde o moinho de café moeu a representação

que se tornou irreconhecível e deu
lugar a uma música de espirais
menos rotativas, a uma memória
menos angulosa, a uma periferia

menos grata a cézanne, a uma natureza
menos morta, talvez seja isso, a uma
natureza pronta para a desordem
de uma outra virtualidade ou natureza.

o moinho de café tornou-se um realejo.
o mundo acelerou-se,
as vidas ficaram menos lineares
e as águas de cristal ficaram pardas.

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