tantas vezes se vive de uma arrebatada
noção dos contrastes mais fortes entre o bem e o
mal, entre a grandeza e a abjecção, entre as rápidas
peripécias de um heroísmo ansioso e o destino inexorável,
que o melodrama é da nossa mais funda natureza,
nostálgica, obscuramente nostálgica do coração radical,
do que vai à desfilada nos sonhos contraditórios,
do que engendra imagens capciosas e julga viver em liberdade,
mas é só imprudente e explosivo, mas esbarra
nas malhas deste mundo, nos imprevistos
da traição e da morte, ou tem de renunciar perante os rasgos
mais sublimes. a paixão dilacera bruscamente as personagens
apegadas à felicidade, os obstáculos
também têm protagonistas, ajustes de contas, cruéis fulgores,
perseguições, e nos casos desvairados de amor não há saída.
desse falhanço insuportável nasce o melodrama,
lírico, incontido, entre golfadas de espiral vertiginosa
com o sangue e a memória, com o que não tem remédio e a música trágica,
em que alguém vai morrer, alguém se perde alucinado,
e alguém se salva e porventura alguém escreve
a história e alguém lhe junta a música
para as emoções serem mais opressivas e talvez mais devoradoras
e mais fáceis, e alguém tem o desejo disso, um estremecimento
de arrepio e vulgaridade, um ávido prazer inconfessado.
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