Wednesday, July 4, 2018

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uma mulher estava nos cuidados intensivos
enevoada em suas ligaduras
e tubos nas narinas e nas mãos
que se agitavam e tudo era metálico,

mas ela, a retalhada,
era só tempo incerto, interrogado e trôpego,
só gemido sem voz quando o homem ansioso
se debruçava na contagem dos segundos,

mas ela, a gotejante,
era um puro intervalo numa frouxa fronteira,
só um peso de pálpebras e noite espessa, quando ele, debruçado,
murmurava as palavras, as que ela não ouvia.

terminada a visita, um olhar de relance, um último
desse dia, cercou-a de silêncios pensativos.
a interrogação, a negação da esperança, são como a rosa negra
das condições da esperança.

despiu a bata branca obrigatória, foi-se devagar
e guardou-lhe o rosto translúcido envolto em gazes leves.
há quanto tempo foi? em que lugar, em que manhã furtiva da memória?
quem era o homem? que palavras proferia?

hoje não sei. é como ver da rua uma figura entre cortinas
numa corrente de ar, às vezes penso que era eu,
mas pergunto também, seria alguém por mim, numa curva do tempo,
a murmurar tão baixo palavras esquecidas?

mas se não era eu, como é que soube dessa voz comovida
a resvalar assim até ser inaudível
fora do coração? e se era eu, como pude
tão de dentro falar, tão apagadamente?

porque eu procuro outros andamentos do mundo,
outros nós na garganta, mais pensados a frio, outras intensidades
sacudidas, mais distantes da emoção imediata,
e nunca mais diria palavras tão obscuras.

não interessa quem era. os mares, os ventos
rolaram e rodaram e foram erodindo verdades, circunstâncias.
estava uma mulher nos cuidados intensivos
e ouvia enevoada os sons que não ouvia.
...
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Vasco Graça Moura
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