Ruy Cinatti

Ruy Cinatti Poems

Os campos estão desertos
Onde outrora floresciam aldeias,
E ecos de sinos dobrando-se às colinas,
Soluçando o silêncio dos pinhais.

Tempo de solares e mesas postas,
Burburinho e cantos matinais.

Hoje silva o comboio e, indiferentes,
Dedos apontam o muro engrinaldado:
"Ali foi . . .", mas já o rio surge.
O comboio estremece as fundações da ponte.
...

The fields are empty
Where at another time villages used to flourish,
And echoes of tolling bells doubled back from the hills,
Sobbing the silence of the pines.

A time of manor houses, grand tables set,
A hum of voices and early morning song.

Today the train goes whistling by and indifferent
fingers point to the vine-draped wall:
"Over there was . . .", but already the river comes in sight.
The train shakes the foundations of the bridge.
...

Um velho, um jovem,
separados pelo acaso.

Lá fora a brisa,
o frio fino.

À luz do candeeiro conversavam
a noite inteira.

O velho, jovem.
O jovem, triste.
...

An old man, a youth,
separated by chance.

Out there the breeze,
the sharpened cold.

In the light of the lamp they talked
the whole night through.

The old man, youthful.
The young man, sad.
...

Quem não me deu Amor, não me deu nada.
Encontro-me parado. . .
Olho em redor e vejo inacabado
O meu mundo melhor.

Tanto tempo perdido . . .
Com que saudade o lembro e o bendigo:
Campos de flores
E silvas . . .

Fonte da vida fui. Medito. Ordeno.
Penso o futuro a haver.
E sigo deslumbrado o pensamento
Que se descobre.

Quem não me deu Amor, não me deu nada.
Desterrado,
Desterrado prossigo.
E sonho-me sem Pátria e sem Amigos,
Adrede.
...

Those who didn't give me Love, didn't give me anything.
I find myself standing still . . .
I look around and see
My better world unfinished.

So much time lost . . .
With what nostalgia I remember it and bless it all:
Fields of flowers
And brambles . . .

I was a spring of life. I deliberate. I make order.
I think the future that will come.
And, dazzled, I follow the thought
That shows itself.

Those who didn't give me love, didn't give me anything.
Banished,
Banished, I travel on.
And dream myself without a country, without a friend.
Wittingly.
...

O que se passa em mim é um prodígio.
Um sim que se dilata
até perder o sentido
longe, como o balão
fugido da criança.
Um sim, transgredido,
arremetido
à estupidez do ouvido,
da razão.
Um sim que quando explode me diz não
com delicadeza.
...

What's happening inside me is a wonder.
A yes that spreads itself
until its path is lost
far off, like the fleeing
balloon of a child.
A yes of trespass,
hurled against
the stupidity of my hearing,
of my reason.
A yes which as it bursts says no to me,
with civil sensitivity.
...

Ora se bem me lembro bem bastava
ter que me dar a gregos e troianos.
Mas dar-me a americanos, russos
e chineses, arre! isso não, que bem me bastam
os portugueses! Esses facínoras de pé na mão, esses
minhocas endomingados na semana
e tesos ao domingo.
Gregos de Ulisses, vale é uma chama
acesa no altar da pátria.
Troianos . . . há Eneias, piedoso,
acartando nas costas o seu povo.
De Portugal, não se fala, nem do Gama.
Mas dar-me a americanos, russos
e chineses, arre! isso não, que bem me bastam
os portugueses!

Quero ver-me é entre tahitianas,
Titiro manhoso, vendedor de flautas
e com elas convívio amenizado.
Quero é dar-me a Circe, enfeitiçar-me
em cavernas simbólicas
onde não faltem os sobresselentes,
o simulacro, o ver de cão travado
pelo cheiro a carne quente.
Penélope esperou-me tanto tempo
que pode esperar mais, como Lisboa.
Mas dar-me a americanos, russos
e chineses, arre! isso não, que bem me bastam
os portugueses!

Acertadas as contas, quero ver
se não me engano.
Contra Ulisses, eu quero ser troiano.
Quero ter
viagem paga, um fim que dignifique,
uma toga, um palácio . . . tudo o que
justifique
minha precária existência
marcada pela traição, pelo pavor
piloto morto, pelo sonhador, pelo incêndio, pela lágrima
de aligator . . .
Verdade, que há um cheiro lusitano . . .
Sou romano.
Aquilo que prometo nunca faço.
Mas dar-me a americanos, russos
e chineses, arre! isso não, que bem
me bastam os portugueses!
...

Well, if I remember right it was bad enough
having to give myself to Greeks and Trojans.
But to give myself to Americans, Russians,
and Chinese, arghh! not that, the Portuguese
are bad enough! Those
strutting thugs, those
tiny worms in Sunday-best all week
and then flat-broke on Sundays.
Odysseus' Greeks, well, fine, O.K., a flame
burning on the homeland's altar.
Trojans . . . there's Aeneas, pious guy,
lugging all his people on his back.
Of Portugal, nothing's said, not even the name Da Gama.
But to give myself to Americans, Russians,
and Chinese, arghh! not that, the Portuguese
are bad enough!

I'd like to see myself among Tahitian girls,
Cunning Titiro, a seller of flutes,
living with them in soothed familiarity.
I'd like to give myself to Circe, get bewitched
in symbolic caverns
suffering no dearth of provender,
with a simulacrum, the vision of a dog fettered
by smell to the warm flesh.
Penelope has waited so long for me
she can, like Lisbon, wait a little longer.
But to give myself to Americans, Russians,
and Chinese, arghh! not that, the Portuguese
are bad enough!

My affairs in order, I'd like to see
if I've got it right.
Against Odysseus, I'd like to be a Trojan.
I'd like to have
my trip for free, an end that dignifies,
a toga, a palace . . . all that might
justify
my precarious existence
marked by treason, dread,
the pilot dead, by the dreamer, fire, an alligator
tear . . .
True, there is a Lusitanian smell . . .
I am a Roman.
What I promise, I never do.
But to give myself to Americans, Russians,
and Chinese, arghh!, not that, the Portuguese
are bad enough!
...

Quando o amor morrer dentro de ti,
Caminha para o alto onde haja espaço,
E com o silêncio outrora pressentido
Molda em duas colunas os teus braços.
Relembra a confusão dos pensamentos,
E neles ateia o fogo adormecido
Que uma vez, sonho de amor, teu peito ferido
Espalhou generoso aos quatro ventos.
Aos que passarem dá-lhes o abrigo
E o nocturno calor que se debruça
Sobre as faces brilhantes de soluços.
E se ninguém vier, ergue o sudário
Que mil saudosas lágrimas velaram;
Desfralda na tua alma o inventário
Do templo onde a vida ora de bruços
A Deus e aos sonhos que gelaram.
...

Teus olhos, Honorine, cruzaram oceanos,
longamente tristes, sequiosos,
como flor aberta nas sombras em busca do Sol.
Vieram com o vento e com as ondas,
através dos campos e bosques da beira-mar.
Vieram até mim, estudante triste,
dum país do Sul.
...

Para Alain Fournier

Vinham de longe em bandos. Acorriam
Jubilosos. Fantasias
De parques pluviosos
E, descendo,
Os patos bravos lançados
Entre juncos, salgueiros e veados.
Tarde,
Muito tarde, uns olhos tais
Haviam de aparecer, sobressaltados
Entre enigmas e um floco de cabelos
Osculado pelo vento. Alegorias...
Do agora ou nunca e do momento
Definido. Trégua impensada,
Insuspeita, no perfume alado
Da página dobrada e abandonada
Dum livro interrompido. Sinto a dor fina,
Finamente atravessada e suave,
- Quase saudade.
...

The Best Poem Of Ruy Cinatti

OS CAMPOS ESTÃO DESERTOS

Os campos estão desertos
Onde outrora floresciam aldeias,
E ecos de sinos dobrando-se às colinas,
Soluçando o silêncio dos pinhais.

Tempo de solares e mesas postas,
Burburinho e cantos matinais.

Hoje silva o comboio e, indiferentes,
Dedos apontam o muro engrinaldado:
"Ali foi . . .", mas já o rio surge.
O comboio estremece as fundações da ponte.

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