Vasco Graça Moura Poems

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1.
TWILIGHT

uma mulher estava nos cuidados intensivos
enevoada em suas ligaduras
e tubos nas narinas e nas mãos
que se agitavam e tudo era metálico,

mas ela, a retalhada,
era só tempo incerto, interrogado e trôpego,
só gemido sem voz quando o homem ansioso
se debruçava na contagem dos segundos,

mas ela, a gotejante,
era um puro intervalo numa frouxa fronteira,
só um peso de pálpebras e noite espessa, quando ele, debruçado,
murmurava as palavras, as que ela não ouvia.

terminada a visita, um olhar de relance, um último
desse dia, cercou-a de silêncios pensativos.
a interrogação, a negação da esperança, são como a rosa negra
das condições da esperança.

despiu a bata branca obrigatória, foi-se devagar
e guardou-lhe o rosto translúcido envolto em gazes leves.
há quanto tempo foi? em que lugar, em que manhã furtiva da memória?
quem era o homem? que palavras proferia?

hoje não sei. é como ver da rua uma figura entre cortinas
numa corrente de ar, às vezes penso que era eu,
mas pergunto também, seria alguém por mim, numa curva do tempo,
a murmurar tão baixo palavras esquecidas?

mas se não era eu, como é que soube dessa voz comovida
a resvalar assim até ser inaudível
fora do coração? e se era eu, como pude
tão de dentro falar, tão apagadamente?

porque eu procuro outros andamentos do mundo,
outros nós na garganta, mais pensados a frio, outras intensidades
sacudidas, mais distantes da emoção imediata,
e nunca mais diria palavras tão obscuras.

não interessa quem era. os mares, os ventos
rolaram e rodaram e foram erodindo verdades, circunstâncias.
estava uma mulher nos cuidados intensivos
e ouvia enevoada os sons que não ouvia.
...

2.
TWILIGHT

a woman lay in intensive care
in a fog of bandages with tubes
entering her nostrils and hands,
which twitched, and it was all metallic,

but she, the cut and punctured,
was just a question of tottering, uncertain time,
just a voiceless moan when the troubled man
leaned over in the countdown of seconds,

but she, the dripper,
was a pure interlude on a weak frontier,
just the weight of eyelids and thick night, when he, leaning over,
murmured the words she didn't hear.

when the visit was over, a glance, the last one
of that day, wrapped her in pensive silences.
questioning and hope's negation are like the black rose
of the conditions for hope.

he removed the obligatory white smock, slowly walked out,
and tucked away the translucent face wrapped in thin gauze.
how long ago was it? in what place, in what furtive morning of memory?
who was the man? what words did he proffer?

i no longer know. it's like seeing from the street a figure
through wind-blown curtains. sometimes i think it was me,
but i also wonder if someone in my stead, in a fold of time,
might have so softly murmured the forgotten words.

but if it wasn't me, how did i know about that choked voice
that kept slipping until it could no longer be heard
outside the heart? and if it was me, how could i
have spoken so inwardly, in such a muffled tone?

because it's other rhythms i seek in the world, other,
more coldly considered knots in the throat, other trembling
intensities, more detached from immediate emotion,
and i would never again say such obscure words.

who it was doesn't matter. the winds and seas
have billowed and rolled, slowly eroding truths, circumstances.
there was a woman in intensive care
who in a fog heard the sounds she didn't hear.
...

3.
UM CÃO PARA POMPEIA

aos amantes enlaçados contraponho
um cão de pompeia, decerto ele andaria
a brincar junto ao forum, à cata de algum osso,
quando o vesúvio o caçou, mais lesto,

para moldá-lo em pedra-pomes.
insisto em vê-lo como um bicho magro e descuidado,
de penúria diuturna. passou de leve
pelos peristilos, alheio ao luxo, à corrupção,

à astrologia, e nunca dos triclínios
lhe caiu um naco envenenado, nunca se tornou
nem animal simbólico, nem mito que ganisse.
nunca foi encontrado nas escavações, mas é para aqui chamado.

era um cão, just a dog, com pulgas e
que alçava a perna como todos os cães
e ladrava e mordia quando era preciso.
fazia pela vida e, fauno das esquinas, pelas cadelas no cio.

alguma tabuleta diria cave canem em tésseras minúsculas,
sem alaridos da história, e só sobreviveu
nos livros de latim expurgados, misturada
com a guerra das gálias e alguns nomes de deuses.

eu canto um cão sem fábula nem pedigree, que não fugiu aos fados,
um rafeiro vulgar, digamos, de plínio
o velho que, a propósito, morreu perto dali,
talvez uivando, uns dias depois dele.

"você é um cerebral", disse-me cloé, flava e enervada.
"sim", disse-lhe eu com prudência, "mas há tantos.
e o amor e a morte sempre foram pensáveis".
e acrescentei "e depois? que mal faz isso ao cão?"
...

4.
UMA PALAVRA NO CORAÇÃO

. . . mit einer Hoffnung auf ein kommendes Wort im Herzen
Paul Celan



quando celan visitou heidegger, e passearam
pelo bosque antes da chuva, ao despedir-se escreveu
no livro da casa sobre a esperança de uma
palavra a vir no coração. e repetiu em todtnauberg,

dois anos antes de morrer, a referência obscura
à linha escrita nesse livro, de uma esperança, então, de que,
a um ser pensante?, de um ser pensante?,
viesse uma palavra no coração. no coração, no lugar onde

a palavra reconcilia por lá se encontrar desde antes,
esperadamente. ao coração, seria menos visceral.
ou já lá estava pronta a vir ou não valia a pena
fosse quebrado o silêncio em tanta expectativa.

as raízes do fogo e do sangue são as raízes
violentas do poema, no seu magma revolto de estranhezas
ou nalguma ténue chama azulando-se em sílabas
delicadas como asas. instalada no coração,

uma palavra, uma oferenda de música e plantas silvestres,
viria a irromper do orvalho, benfazeja, transportando
se não o esquecimento, a paz. uma palavra.
tudo o que celan pedia e não sabemos se obteve

e talvez ainda procurasse numa noite de abril, no rio sena.
...

5.
A WORD IN THE HEART

. . . mit einer Hoffnung auf ein kommendes Wort im Herzen
Paul Celan



when celan visited heidegger and they walked
in the woods before it rained, on leaving he wrote
in the visitors' book about his hope in a
word to come in the heart. and in todtnauberg,

two years before dying, he again referred to the obscure
phrase written in that book, about a hope that a word
would come (to a thinking being? from a thinking being?)
in the heart. in the heart, that place where

the word is able to reconcile since it's there beforehand,
ardently waiting. to the heart would be less visceral.
either it's already there, ready to come out, or there's no point
in breaking the silence with so much expectation.

the roots of fire and of blood are the poem's same violent
roots, in its convulsive magma of wondrous things
or in a tenuous flame bluing into syllables
delicate as wings. planted in the heart,

a word, an offering of music and wild plants,
would come from out of the dew and bless, if not
with forgetting, then at least with peace.
that was all celan asked for and we don't know if he obtained it

or if he still sought it, one april night, in the seine.
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6.
CLARA HASKILL

e há sempre uma história das pessoas ouvida com o que somos,
uma narração a prolongar a acústica dos sóis interiores, destinos
quando a tarde esmorece, por exemplo, aos

sessenta e cinco anos, clara haskill caiu na plataforma
da gare de bruxelas. veio a morrer
das complicações da queda. mas antes já tivera

problemas da coluna e da vista, já
tivera de fugir da alemanha. estas notas
vêm na capa do disco em que ela, a intermediária

de mozart, toca o concerto em ré menor, numa aura
de densidades graves. você está deitada no sofá
a ler um livro, quando eu lhe digo isto. não

sei se presta atenção, ou se apenas sorri como a música requer
e a haskill desejaria. a música é sempre autobiográfica
para o ouvinte, uma acelerada angústia desmedindo o que

ousávamos saber. e uma íntima aliança com a luz
e o inominável da experiência fazem
o sublime dessas marginalidades da vida.
...

7.
CLARA HASKILL

and there's always a human story that speaks to who we are,
a narrative that prolongs the acoustics of our inner suns, destinies
as the afternoon starts waning, for instance, at

age sixty-five clara haskill fell on the platform
at the station in brussels and eventually died
of complications from the fall. but she'd already had

problems with her eyes and her back. she'd already
been forced to flee from germany. these notes
are on the jacket of the record where she, mozart's

intermediary, plays the d-minor concerto, in an aura
of grave densities. you're lying on the couch
reading a book when i tell you this. i don't know

if you're paying attention or just smiling as the music demands
and haskill would like. music is always autobiographical
for the listener, an accelerated anguish exacerbating what

we dared to know. and an intimate pact with light
and the ineffable part of experience make
for the sublime in these marginalia of life.
...

8.
PARA A EDUCAÇÃO SENTIMENTAL

tantas vezes se vive de uma arrebatada
noção dos contrastes mais fortes entre o bem e o
mal, entre a grandeza e a abjecção, entre as rápidas
peripécias de um heroísmo ansioso e o destino inexorável,

que o melodrama é da nossa mais funda natureza,
nostálgica, obscuramente nostálgica do coração radical,
do que vai à desfilada nos sonhos contraditórios,
do que engendra imagens capciosas e julga viver em liberdade,

mas é só imprudente e explosivo, mas esbarra
nas malhas deste mundo, nos imprevistos
da traição e da morte, ou tem de renunciar perante os rasgos
mais sublimes. a paixão dilacera bruscamente as personagens

apegadas à felicidade, os obstáculos
também têm protagonistas, ajustes de contas, cruéis fulgores,
perseguições, e nos casos desvairados de amor não há saída.
desse falhanço insuportável nasce o melodrama,

lírico, incontido, entre golfadas de espiral vertiginosa
com o sangue e a memória, com o que não tem remédio e a música trágica,
em que alguém vai morrer, alguém se perde alucinado,
e alguém se salva e porventura alguém escreve

a história e alguém lhe junta a música
para as emoções serem mais opressivas e talvez mais devoradoras
e mais fáceis, e alguém tem o desejo disso, um estremecimento
de arrepio e vulgaridade, um ávido prazer inconfessado.
...

9.
SENTIMENTAL EDUCATION

we often live according to a rash
notion of stark contrasts between good
and evil, greatness and wretchedness, the swift deeds
of an avid heroism and the inexorable march of destiny,

melodrama being part of our deepest nature,
obscurely but stubbornly nostalgic for the radical heart,
which races at top speed in contradictory dreams,
which engenders seductive images and thinks it lives in freedom,

but it's merely reckless and explosive, it stumbles
into the world's snares, into unexpected
treachery and death, or it must renounce in the face of the most
sublime flashes. passion rudely lacerates people

attached to happiness. the obstacles we meet
also have protagonists, scores to settle, cruel splendors,
feverish pursuits. and in desperate cases of love there's no way out.
from that unbearable failure is born lyrical, unbridled

melodrama, amid whirling, dizzying spurts
of blood and memory, of dashed hopes and tragic music,
in which someone dies, someone goes mad,
and someone is saved, and maybe someone writes down

the story, and someone else adds music
for the emotions to be more oppressive and perhaps more consuming
and facile, and someone desires this, it makes someone feel a shiver
of tingling banality, a voracious and unconfessed thrill.
...

10.
O MOINHO DE CAFÉ

o moinho de café figura nalguns
quadros dos cubistas, com o jornal, a
garrafa, o cachimbo, tudo em
castanhos e cinzentos. é

a realidade nas suas arestas vivas, a sombria
presença das reduzidas
alucinações: o moinho
de café transformava tudo em fino pó

moído que encravava as engrenagens mais íntimas,
as da paixão e do lamento, ou as caligrafias
lineares de meios perfis e aves azul-cobalto.
mais tarde o moinho de café moeu a representação

que se tornou irreconhecível e deu
lugar a uma música de espirais
menos rotativas, a uma memória
menos angulosa, a uma periferia

menos grata a cézanne, a uma natureza
menos morta, talvez seja isso, a uma
natureza pronta para a desordem
de uma outra virtualidade ou natureza.

o moinho de café tornou-se um realejo.
o mundo acelerou-se,
as vidas ficaram menos lineares
e as águas de cristal ficaram pardas.
...

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