Love is a fire that burns unseen,
a wound that aches yet isn't felt,
an always discontent contentment,
...
Dear gentle soul, you that departed
this life so soon and reluctantly,
rest in heaven eternally
while I remain here, broken-hearted.
If there in the ethereal skies
memories are still allowed to move,
do not forget that ardent love
you once saw shining in my eyes.
And if you judge there might be merit,
however small, in this pain that stays,
grieving with nothing to repair it,
petition God, who cut short your days,
to take me to you, in that reckless spirit
he used to summon you from my gaze.
...
Alma minha gentil, que te partiste
tão cedo desta vida descontente,
repousa lá no Céu eternamente,
e viva eu cá na terra sempre triste.
Se lá no assento etéreo, onde subiste,
memória desta vida se consente,
não te esqueças daquele amor ardente
que já nos olhos meus tão puro viste.
E se vires que pode merecer-te
algũa cousa a dor que me ficou
da mágoa, sem remédio, de perder-te,
roga a Deus, que teus anos encurtou,
que tão cedo de cá me leve a ver-te,
quão cedo de meus olhos te levou.
...
A Pero Moniz, que morreu no mar
de Monte Felix, em epitáfio
No mundo poucos anos, e cansados,
vivi, cheios de vil miséria dura;
foi-me tão cedo a luz do dia escura,
que não vi cinco lustros acabados.
Corri terras e mares apartados,
buscando à vida algum remédio ou cura;
mas aquilo que, enfim, não quer ventura,
não o alcançam trabalhos arriscados.
Criou-me Portugal na verde e cara
pátria minha Alenquer; mas ar corruto
que neste meu terreno vaso tinha,
me fez manjar de peixes em ti, bruto
mar, que bates na Abássia fera e avara,
tão longe da ditosa pátria minha!
...
Epitaph for Pero Moniz*, who died
at sea near Mount Felix
Few and wearisome years I lived
in the world, enduring vile hardship;
the light of day went dark on me
before I saw my twenty-sixth year.
I traveled distant lands and seas,
trying to find a cure for life,
but perilous ventures can't attain
what Fortune, finally, doesn't will.
Portugal brought me up in dear
green Alenquer, my home, but rotten
air in my earthen vessel changed me
into food for your fish, O vicious
sea that rages by Abyssinia,
so bleak and far from my happy homeland!
...
Pois meus olhos não cansam de chorar
tristezas, que não cansam de cansar-me;
pois não abranda o fogo em que abrasar-me
pôde quem eu jamais pude abrandar;
não canse o cego Amor de me guiar
a parte donde não saiba tornar-me;
nem deixe o mundo todo de escutar-me,
enquanto me a voz fraca não deixar.
E se nos montes, rios, ou em vales,
piedade mora, ou dentro mora Amor
em feras, aves, prantas, pedras, águas,
ouçam a longa história de meus males
e curem sua dor com minha dor;
que grandes mágoas podem curar mágoas.
...
Since my eyes don't tire of weeping
sorrows that don't tire of weighing on me,
since nothing softens the fire I burn in
for one whose heart I could never soften,
let blind Love be my tireless guide
to lands I don't know my way out of,
and let the whole world keep on listening
as long as my weak voice doesn't fail.
And if there's pity in hills, rivers
and valleys, or if there's Love in beasts,
birds, plants, stones and streams,
let them hear my long tale of troubles
and use my sorrow to cure their own,
since greater griefs can cure smaller ones.
...
Foge-me pouco a pouco a curta vida
(se por caso é verdade que inda vivo):
vai-se-me o breve tempo d'ante os olhos;
choro pelo passado e quando falo,
se me passam os dias passo e passo,
vai-se-me, enfim, a idade e fica a pena.
Que maneira tão áspera de pena!
Que nunca ũa hora viu tão longa vida
em que possa do mal mover-se um passo.
Que mais me monta ser morto que vivo?
Para que choro, enfim? Para que falo,
se lograr-me não pude de meus olhos?
Ó fermosos, gentis e claros olhos,
cuja ausência me move a tanta pena
quanta se não comprende enquanto falo!
Se, no fim de tão longa e curta vida,
de vós m'inda inflamasse o raio vivo,
por bem teria tudo quanto passo.
Mas bem sei, que primeiro o extremo passo
me há-de vir a cerrar os tristes olhos
que Amor me mostre aqueles por que vivo.
Testemunhas serão a tinta e pena,
que escreveram de tão molesta vida
o menos que passei, e o mais que falo.
Oh! que não sei que escrevo, nem que falo!
Que se de um pensamento n'outro passo,
vejo tão triste género de vida
que, se lhe não valerem tantos olhos,
não posso imaginar qual seja a pena
que traslade esta pena com que vivo.
N'alma tenho contino um fogo vivo,
que, se não respirasse no que falo,
estaria já feita cinza a pena;
mas, sobre a maior dor que sofro e passo,
me temperam as lágrimas dos olhos
com que fugindo, não se acaba a vida.
Morrendo estou na vida,
e em morte vivo;
vejo sem olhos,
e sem língua falo;
e juntamente passo
glória e pena.
...
Little by little it ebbs, this life
if by any chance I am still alive;
my brief time passes before my eyes;
I mourn the past in whatever I say,
as each day passes, step by step;
youth deserts me; what persists is pain.
And what a bitter variety of pain
that not for an hour in so long a life
could I give evil so much as a side step!
Surely, I'm better dead than alive?
Why complain, at last? What's more to say,
having failed to be cheated by my own eyes?
Those lovely, gentle and lucid eyes
whose absence caused me as much pain
as her not understanding whatever I say!
If at the end of so long a short life
you should keep the burning ray alive
blessings will attend my every step.
But first I'm aware the ultimate step
must advance to close these sad eyes
love opened to those by which I live.
Pen and ink must witness to the pain
in writing of so troublesome a life
the little I lived through, and the more I say.
Oh, I know not why I write or what I say!
If contemplating yet another step
I envisage a sad version of life
that places no value on such eyes,
I cannot conceive how such pain
could find a pen to declare I'm alive.
In my heart, the embers are still alive;
if they found no relief in what I say
they would now have made ashes of my pain;
but beyond this grief I overstep,
I'm softened by the tears of those eyes
that, though life is fleeting, keep me alive.
I am dying alive;
in death I live;
I see without eyes;
tongue-less I speak;
they march in goose step,
glory and pain.
...
Quem tão baixa tivesse a fantasia
que nunca em mores cousas a metesse
que em só levar seu gado à fonte fria
e mungir-lhe o leite que bebesse!
Quão bem-aventurado que seria!
Que, por mais que Fortuna revolvesse,
nunca em si sentiria maior pena
que pesar-lhe da vida ser pequena.
Veria erguer do sol a roxa face,
veria correr sempre a clara fonte,
sem imaginar a água donde nace,
nem quem a luz esconde no horizonte.
Tangendo a frauta donde o gado pace,
conheceria as ervas do alto monte;
em Deus creria, simples e quieto,
sem mais especular nenhum secreto.
De um certo Trasilau se lê e escreve,
entre as cousas da velha antiguidade,
que perdido um grão tempo o siso teve
por causa dũa grande infirmidade;
e enquanto, de si fora, doudo esteve,
tinha por teima e cria por verdade,
que eram suas as naus que navegavam,
quantas no porto Píreo ancoravam.
Por um senhor mui grande se teria
(além da vida alegre que passava),
pois nas que se perdiam não perdia,
e das que vinham salvas se alegrava.
Não tardou muito tempo quando, um dia,
um Crito, seu irmão, que ausente estava,
à terra chega; e vendo o irmão perdido,
do fraternal amor foi comovido.
Aos médicos o entrega, e com aviso
o faz estar à cura refusada.
Triste, que por tornar-lhe o caro siso
lhe tira a doce vida descansada!
As ervas Apolíneas, de improviso,
o tornam à saúde atrás passada.
Sesudo, Trasilau ao caro irmão
agradece a vontade, a obra não.
Porque, despois de ver-se no perigo
dos trabalhos que o siso lhe obrigava,
e despois de não ver o estado antigo
que a vã opinião lhe apresentava,
—Ó inimigo irmão, com cor d'amigo!
Para que me tiraste (suspirava)
da mais quieta vida e livre em tudo
que nunca pôde ter nenhum sesudo?
Por que rei, por que duque me trocara?
Por que senhor de grande fortaleza?
Que me dava que o mundo se acabara,
ou que a ordem mudasse a natureza?
Agora é-me pesada a vida cara;
sei que cousa é trabalho e que tristeza.
Torna-me a meu estado, que eu te aviso
que na doudice só consiste o siso.
...