"Eu Me Volto" Poem by Mandy Ostnas

"Eu Me Volto"

Eu fui menina,
com o laço torto no cabelo
e o peito apertado de silêncio.
Sonhava em segredo,
enquanto o mundo gritava comigo.

Perdi meu pai cedo,
e com ele, um chão que nem era firme,
mas era meu.
Na casa da avó, aprendi a me calar
sem que ninguém me ensinasse.
E quando a dor veio —
aquela que a infância nunca deveria conhecer —
eu me fechei por dentro
com uma força que ninguém viu.

Cresci com a voz engolida,
perseguida por espelhos que diziam:
"seja magra, seja perfeita, seja outra."
Mas eu era só eu.
E por muito tempo achei
que isso não bastava.

Fui adolescente com alma de gente grande,
com olhos que buscavam amor até nas esquinas erradas.
Aceitei metades,
acreditei em promessas com fome de poesia,
e doei o coração
a quem só queria tê-lo — não senti-lo.

Virei mulher entre os escombros.
Repeti ciclos,
porque ainda não sabia que repetir
também é uma forma de gritar: 'me escuta! '

Casei.
Acreditei no amor de novo —
e talvez por isso, não me culpo.
Porque amar sempre foi meu dom,
mesmo quando doía.
Mesmo quando precisei cozinhar com o coração cheio
pra alguém que só via o meu cansaço.
Mesmo quando precisei calar pra não causar
mais uma guerra onde só eu morava.

E agora,
essa mulher de quase 30
olha pra trás e não se vê fraca.
Se vê de pé.

Sobrevivente.
Silenciosa guerreira.
Alguém que limpou o chão da alma
com as próprias mãos
e ainda assim teve a delicadeza de plantar flores.

Hoje,
eu me volto.
Não para os braços que me negaram abrigo.
Mas para mim.
Pra aquela criança que ainda mora aqui
e sussurra: "por favor, me veja."

Eu me vejo.
Me curo.
Me acolho.
Me reconstruo.

E se ninguém mais me chamar de mulher forte,
não importa.
Porque eu sou.
Sou por dentro.
Sou por inteiro.
Sou mesmo quando tremo.
Sou até quando desabo.

Porque depois de tudo,
ainda sou eu que junto os cacos.
E recomeço.

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