"Ai que agora é que são elas!
Que fazeis vós, afinal?
A sonhar co'as três donzelas
Debaixo dum laranjal?
Saí daqui bem asinha!
Deitai mão àqueles cabos!
Mostrai que sois marinheiros,
E não moços de cozinha
Lá dos fulanos bem grados
Que só comem perdizinha
E não perdem seus agrados
Co' as damas de cadeirinha.
Estais aqui pra moirejar,
Para trepar ao gurupés,
Para as velas bem rizar,
Para mostrar intrepidez.
Não tivestes berço d'oiro,
Vossa vida é de grumete,
Mas não é nenhum desdoiro
Não usardes um mosquete!
No mar se vêem os homens:
Os de quebrar que torcer
E aqueles que se consomem
Por melhor vida a gemer.
Trepa lá, ó meu calouro!
Acima, ao mastro real!
Vê se vês navio de mouro
Ou terras pra Portugal!
"Pra Portugal, capitão?
E onde as hei-de eu achar?
Só sinto grande aflição
Por ser tão vasto este mar.
Terras, onde as haverá?
Como haviam de existir?
Aqui não há alvará
Pró que gente descobrir."
"Que Deus me dê paciência
Pra tais desmandos ouvir.
Pois não vês tu que a sabença
É que nos vai acudir?
Anda cá, ó meu fedelho!
Pega-me nesse instrumento,
E vai, com jeito e trambelho,
Medir a força do vento."
Os nautas tinham seus brios
Tudo haviam que saber -
Não usavam de fastios,
Não paravam de aprender.
Mas, uma vez sem exemplo,
Pasmavam de admiração
Havia novo instrumento -
Ignoravam-lhe a função.
Então chovia a chalaça,
Largava-se uma piada,
Mas não era por pirraça,
Era sempre sem maldade.
Foi o que houve, certo dia,
Em que o bravo capitão
Bem sabendo o que fazia,
Gritou pelo Sebastião.
Um atrevido rapazote,
Que no Algarve estivera,
E largava o seu dichote,
E tinha sua quimera.
Havia de ser bem rico,
Ter fama e ter o proveito,
Possuir seu amorico,
Ser por todos bem aceite.
"Anda cá, ó Bastião,
Vai-me lá pesar o sol,
e dá-me aqui uma mão,
Porque sei que não és mole."
"Olha lá essa, patrão?
E como fará o moço?
Balança não serve, não,
E ganha terçol, o moço! "
"Vai lá, ó meu marujito,
Pega lá no instrumento,
Não ligues ao que foi dito.
Palavras, leva-as o vento!
O astrolábio é precioso
Para sabermos alturas.
Pode ser que tanto gozo
Evite muitas agruras."
"Olha lá que cousa fosca!
Astro... lá...lábio de astro? !
Donde veio nome tão tosco
Que não se lhe topa o rastro? "
"Anda lá, passa uma esponja,
Não ligues a disparates.
Não és moço de lisonja,
Nem te mordem acicates."
E assim surge nesta gesta
Algo que só traz vantagem:
Que nada tem de funesta
E que salva uma viagem.
O mais singelo grumete
Podia "pesar o sol",
Ou manobrar um traquete -
E subir depois de escol.
E foi esse o instrumento
Colhido da astrologia,
Modificado a contento -
Que tanta falta fazia -
A permitir descobertas
Com que Portugal sonhava
E umas outras tão incertas
Que outros as disputavam.
Descobria-se uma terra
Mas não se falava dela:
Suas riquezas encerra -
Era preciso escondê-la
Em mapas tão tortuosos
Que não se podiam ver,
E pra sempre sigilosos -
Sob pena de morrer.
Fazia-se o achamento,
Ficava o Rei a saber:
O cronista era instrumento
Para quem o quisesse ler.
Mas a Verdade onde está?
Para que se fez Tordesilhas?
As terras já estavam lá,
Já sabíamos das Antilhas.
El-Rei conhecia tudo,
E era mestre no ardil:
Ainda hoje se discute
Quem pôs o pé no Brasil.
E a Madeira apareceu
Na data que vamos ler?
Ou foi El-Rei que escondeu
O seu "tesoiro"...até ver?
E Colombo...em que ficamos?
O homem não se assinava
Com o nome que lhe damos...
Coisa estranha e desusada.
O que sabemos ao certo
É que Portugal cresceu -
Deixou de ser um deserto -
E se expandiu como um céu.
E quando surgia o medo
Em água desconhecida
O timoneiro era teso:
Não temia pela vida.
Berrava: "Não há pirata,
E o navio não vai ao fundo!
A vontade que nos ata
É a de El-rei D. João II! "
Nosso rei era espantoso:
Um prodígio nunca visto;
Tinha tanto de fogoso
Como tinha de legista.
Temiam-no? Isso era certo.
Não se deixava enrolar.
Preferia jogar pela certa,
Até mesmo apunhalar.
O respeito era tão fundo:
De tanto que o mereceu
Que passou de João II
A "Homem", quando morreu.
Paula Reis
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