Te entrego um buquê de rosas vermelhas,
pra você pôr num jarro d'água.
Elas vão murchar e boiar,
a água vai descer o nível, evaporar,
enquanto as bactérias e fungos se alimentam
do gesto de amor que tu tanto pediu.
Ao menos era possível olhar as flores,
já sem vida, longe do sol,
mas dentro da tua casa,
do teu quarto — ou direto pra lixeira.
Talvez guardar,
quando elas morrerem de vez,
seria mais simpático;
a semiótica seria de mais educação,
de mais amor ao gesto e ao autor,
não só do romantismo.
Tenha mais paixão pelo eu lírico,
pelo nome assinado no rodapé,
pelos caules verdes das rosas
que tu só cheira quando estão vermelhas.
Porque apreciar o portador de vida limitadíssima?
A mosca que pousa na superfície do pote
com o que restou das rosas,
já amarronzadas e exalando enxofre,
também tem uma vida curta.
talvez ela tenha visto e cheirado
mais flores que você
em apenas um único ciclo de rotação terrestre.
Ela é mais amada que você?
Será então que o segredo para ser amada
é viver pouco?
Flores são dar e receber,
amar e ser amado,
receber, pôr num pote e deixar morrer.
Esperar a mosca chegar
e esperar pela próxima.
Quando tudo acabar,
jogue as rosas que eu lhe dei pela privada —
elas poderão boiar na água novamente,
pela segunda vez na vida.
Mas desta vez,
terão um novo significado.
Enfim...
posso te entregar flores amanhã?
Por JCDBLOM.
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