Thursday, August 16, 2018

A EUROPA EM ROTERDÃO Comments

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Dói-me o coração da europa, com as suas veias inchadas
pelo vento do ocidente, e as mãos gretadas pelo gelo
dos invernos. Sentei-me com a europa num bar de roterdão,
desenhando na cabeça os mapas do mundo; e obriguei-a
a beber o café holandês, com os seus lábios doentes,
como se a europa não fosse o continente insone
dos últimos milénios, varrido pelos temporais da
mitologia, de crença abalada por um terror ateu.

Vi a europa nesse café de roterdão, antes de sair
para as ruas desenhadas a compasso e esquadro;
perguntei-lhe para onde queria ir; e ouvi o seu
murmúrio despir-se de uma palidez plural, como
se ela quisesse ser o rosto único da multidão,
e passear num anonimato de rua cosmopolita,
ouvindo as vozes que lhe falam de ilhas e praias,
restituindo-lhe um sonho de antigas viagens.

Vejo nos seus olhos um reflexo das gruas e
guindastes do porto de roterdão, e apago-o com
a borracha da eternidade, para que ela se sente
na esplanada onde lhe peço que me fale; e
ela olha-me, em silêncio, com a voz alucinada
num eco de loucura; e ouço-a dizer-me que
não sabe em que tempo vive, como se fosse
eu que lhe tivesse de ensinar o caminho.

Pego na sua mão; e ela desfaz-se nas linhas
improváveis do poema, onde se projecta uma
sombra que eu perco, na noite de roterdão.
...
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Nuno Júdice
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