DOMINGO EM CASA Poem by Nuno Júdice

DOMINGO EM CASA

Amanhã podia ser domingo, e
não haver sol; podia ouvir os sinos e
dizer que era apenas uma ilusão; podia
descer a rua e não encontrar o homem
que vende os jornais; podia chegar
ao largo e não ver as mulheres
em grupo a caminho da igreja, onde
vai começar a missa.

Amanhã podia não ser domingo,
e as ruas estarem vazias como se
não houvesse nada para fazer; podia não
ser domingo e todas as lojas
fecharem; podia não
ser domingo e alguém perguntar
o que é que se faz quando não
é domingo.

Amanhã podia ser um dia qualquer,
e não saber em que dia estou; podia
olhar para o relógio e descobrir que
os ponteiros estão parados; podia
ouvir alguém falar, e não saber de onde
vem a voz que sai da sua boca, como
se estivesse sozinho.

Ou então, podia abrir a porta e
ver que o domingo quer entrar; e
puxá-lo para dentro da casa, para
que lá fora fique sem domingo; e
sair para a rua num dia qualquer,
perguntando a quem passa
se viu passar o domingo.

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